segunda-feira, 7 de Janeiro de 2008

Ditos e reditos

Deus não dorme!

Quando eu era menina os adultos tinham a mania de falar à frente das crianças como se elas não existissem. As pessoas crescidas, quando somos pequenos, são seres fantásticos, enormes e incompreensíveis. Falam e dizem coisas que, muitas vezes, não percebemos, mas que não deixam de nos causar medo. O poder das palavras das pessoas crescidas é muito grande e devia, por isso, ser usado com maior cuidado. Há meninos que, mesmo quando chega o escuro, permanecem na cama sem dormir, os olhos arregalados, o corpo sacudido por sensações de calor e frio, uma enorme vontade de urinar.

Nessas conversas, quando eu era menina, era usual ouvir a minha avó dizer, a propósito de certos factos da vida, a frase: "Deus não dorme!". Que factos eram esses, qual a sua importância e dimensão, era coisa que eu desconhecia. Ficava-me a imagem desse ser estranho, assustador, capaz de coisas únicas como, por exemplo, não dormir.

Já mais crescida supus entender a existência de uma verdade e justiça universais, das quais esse Deus era fiel guardião. O medo não desapareceu, mas a ele veio juntar-se um incómodo sentimento de culpa que me fazia sentir-me feia, sempre que fazia ou desejava algo que Ele parecia não aprovar. E digo parecia porque, na minha infância, jogava-se um jogo estranho, do tipo dizer as regras sem explicar porquê. Nunca entendi bem esse jogo e duvido que os adultos o entendessem também, já que eles próprios faziam coisas bem diferentes daquelas que não se abstinham de afirmar.

Conhecer Deus assim é feio, cruel e redutor; não é de espantar, pois, que na adolescência eu não me cansasse de tentar aborrecer a minha mãe, afirmando-lhe, por tudo e por nada, que não acreditava em Deus. Como nasci numa família de tradição católica, acabei mesmo por conseguir criar algumas situações de tensão e conflito, nada úteis para mim, uma vez que continuei a não ouvir qualquer explicação que me fizesse sentido como, por exemplo, a referência à palavra Amor.

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