Para o pensamento religioso quanto mais antigo mais verdadeiro. Remontar às origens é remontar a uma verdade essencial, que ficou perdida algures lá atrás, no princípio dos princípios, ou no momento preciso da revelação verdadeira e, eventualmente, definitiva. A iluminação de Buda, a revelação de Jesus, a pregação de Maomé. Pelo contrário, na ciência, o antigo tende a ser ultrapassado. Einstein pode, sem dúvida, reconhecer que Newton tinha chegado tão longe quanto era possível no seu tempo, mas dificilmente, a não ser que saísse do discurso científico e passasse para o discurso religioso, poderia defender que Newton estava mais correcto do que ele, Einstein, apenas porque tinha surgido antes de Einstein. A verdade, em ciência, não é revelada por Newton nem por Einstein, pela simples razão de que em ciência a verdade não existe. Ou ao menos não existe com V grande, como acontece na religião. Claro que há muito do pensamento religioso que passou para a ciência, como existe muito do pensamento científico que já estava na religião. Não vale a pena ter ilusões em relação a isto. A ciência não instaura, ao contrário do que alguns quiseram crer, um maravilhoso mundo novo onde a verdade científica surge como uma Boa-Nova, uma nova revelação pronta a lançar a religião para o mundo obscuro da fantasia e da superstição. Tal ideia aliás transformaria a ciência numa nova religião e levaria a que esta acabasse por representar aquilo mesmo que se propunha substituir.
Aquilo de que precisamos, provavelmente, é de uma religião que se projecte no futuro e que ponha a hipótese, mesmo que frágil e provisória, de que tudo aquilo em que se acreditou no passado pudesse ser apenas erro, mentira e ilusão. E de uma ciência que não corte em absoluto com o passado, mas que aprenda a ver nos seus erros, mentiras e ilusões, o fundo de verdade, ou de ânsia para a verdade, que todas as tentativas humanas de esclarecer um assunto sempre contêm. Sem nenhuma cedência ao obscurantismo, precisamos de uma ciência aberta; e sem nenhuma cedência às verdades do momento, ainda que oriundas da ciência, precisamos de uma religião desperta. Sem falsos dogmatismos nem irracionais arrogâncias. A religião só pode iluminar a ciência na exacta medida em que a ciência a pode esclarecer. Se as verdades de hoje são as ilusões de amanhã, as ilusões de ontem não podem ser as verdades de hoje.
quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008
Pensamento religioso vs Pensamento científico
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jctp
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0:55
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